quarta-feira, 14 de novembro de 2012


Quase 60% das domésticas que trabalham no DF vêm do nordeste
Um requisito incomum no caso de outras profissões aparece com frequência em anúncios de emprego para contratação de domésticas nos classificados de Brasília: “Pref. recém chegadas”, avisam os futuros patrões. A expressão mostra o quanto a ocupação na capital federal é quase exclusivamente desempenhada por gente de fora, sobretudo de lugares mais pobres do país. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos apontam que 57,1% das mulheres que exercem a profissão nas casas do Distrito Federal vieram do Nordeste. A predileção pelas migrantes, entretanto, não está ligada a algum dote especial. Sob a condição de anonimato, contratantes admitem as verdadeiras razões — as empregadas tendem a ficar mais tempo no trabalho, inclusive nos fins de semana, por não conhecerem ninguém, além de apresentarem um nível de tolerância maior em relação a jornadas longas, falta de carteira assinada e outros direitos suprimidos.

“Não é maldade. Apenas quero ter certeza se a pessoa vai querer ficar comigo antes de assinar carteira, toda essa burocracia”, diz uma mulher que tenta, há cerca de 15 dias, contratar alguém que durma no emprego. As razões apresentadas pelos patrões são muitas e o discurso, quase sempre, resvala para a tese de que todos ganham — quem contrata teria que ensinar o serviço e, por isso, acha justo que inicialmente parte dos direitos seja desrespeitada. Para Rebecca Tavares, diretora regional da ONU Mulheres Brasil e Cone Sul, a ideia não passa de ranço cultural que leva as domésticas a serem vistas como “serviçais”. “É um trabalho subvalorizado, invisível e executado principalmente por mulheres e meninas, muitas das quais são migrantes ou membros de comunidades desfavorecidas e, portanto, particularmente vulneráveis à discriminação em relação às condições de emprego e trabalho, bem como outros abusos de direitos humanos”, afirma.

Durcelene Cândida Pereira se enquadra perfeitamente na definição da diretora da ONU. Com 10 irmãos e uma vida difícil em Monte Alegre do Piauí, ela foi dada pela mãe, aos 9 anos, a um casal de profissionais liberais de Brasília. Viveu com a família até os 17, cuidando dos filhos dos novos “pais” e ajudando na limpeza, especialmente nos fins de semana. De segunda a sexta-feira, tinha um turno livre para estudar na escola pública próxima. “Eles diziam, para os amigos, que era como se eu fosse uma filha. Mas eu sabia o meu lugar. Dormia com a outra empregada. Nosso quarto tinha até uma campainha para a hora de acordar”, lembra Durce. O local de comer também era separado. “Às vezes, eles me deixavam almoçar na mesa. Eram os meninos (filhos dos donos da casa) que de vez em quando vinham comer comigo na cozinha”, lembra a mulher, hoje com 41 anos.

A falta de notícias da própria família se manteve por anos, assim como o desejo crescente de mais liberdade em uma Durcelene já adolescente. “Eu só podia ir aos lugares que eles fossem. Então começamos a ter conflitos. Daí reencontrei uma tia, que estava morando no Núcleo Bandeirante e, com 17 anos, resolvi sair de lá, depois de uma discussão”, afirma. Apesar de considerar que houve exploração por parte da família, Durcelene diz ter gratidão por eles. “Reconheço a parte boa. Aprendi muito com a criação e educação que eles me deram. Sou bem diferente dos meus irmãos, hoje, por exemplo, por causa disso. Eu realmente não era a filha que eles diziam, mas teve o lado positivo”, comenta Durcelene, acrescentando que perdeu contato com a família desde que saiu.

Durante os seis anos seguintes, ela trabalhou como doméstica no DF. Até que uma guinada aconteceu em sua vida, quando aprendeu a fazer unhas. Nunca mais largou o ofício de manicure, que lhe garante hoje uma renda superior a R$ 4 mil. Assim como Durcelene, é cada vez mais comum a saída do emprego doméstico para outros ramos. Na história delas, uma boa dose de coragem, força de vontade e muitas vezes a presença de uma patroa justa. “Se a pessoa tem seus direitos respeitados, ela tem autoestima, ela pode fazer planos porque sabe que é parte da Previdência, que vai ter 13º salário, que é um trabalhador, e não uma subcategoria”, afirma Francisco Xavier, diretor da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad).

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